Olha pra mim, me dê a mão
Depois um beijo
Em homenagem a toda
Distância e desejo
Mora em mim
Que eu deixo as portas sempre abertas
Onde ninguém vai te atirar
As mãos vazias nem pedras
Cazuza
"Quero outra vez um quarto todo branco e um par de asas. Mesmo de papelão." Caio Fernando Abreu
sexta-feira, 23 de abril de 2010
quinta-feira, 22 de abril de 2010
"Mas, por quê?
Porque não ensinam às pessoas, desde bem pequenas, que elas são indivíduos preciosos? Que devem amar não por carência, acreditando que desta forma a solidão de suas existências cessará. Mas amar com o coração em paz, com a idéia de que nem a pessoa mais íntima pode compartilhar a sua dor. A dor de não ser hermafrodita, de não ter com quem partilhar as suas entranhas.
O Homem deve cultivar a si mesmo com amor e cuidado. Acreditar-se eterno. SER PARA SI próprio eterno, afinal é certo que você será aquele quem mais tempo lhe fará companhia. E deixar o amor livre desta obrigação.
Deve o Homem acreditar na durabilidade do amor, mas nunca forçá-lo a isso".
Fernanda Young.
Porque não ensinam às pessoas, desde bem pequenas, que elas são indivíduos preciosos? Que devem amar não por carência, acreditando que desta forma a solidão de suas existências cessará. Mas amar com o coração em paz, com a idéia de que nem a pessoa mais íntima pode compartilhar a sua dor. A dor de não ser hermafrodita, de não ter com quem partilhar as suas entranhas.
O Homem deve cultivar a si mesmo com amor e cuidado. Acreditar-se eterno. SER PARA SI próprio eterno, afinal é certo que você será aquele quem mais tempo lhe fará companhia. E deixar o amor livre desta obrigação.
Deve o Homem acreditar na durabilidade do amor, mas nunca forçá-lo a isso".
Fernanda Young.
segunda-feira, 19 de abril de 2010
O DIA QUE JÚPITER ENCONTROU SATURNO
Foi a primeira pessoa que viu quando entrou. Tão bonito que ela baixou os olhos, sem querer querendo que ele também a tivesse visto. Deram-lhe um copo de plástico com vodca, gelo e uma casquinha de limão. Ela triturou a casquinha entre os dentes, mexendo o gelo com a ponta do indicador, sem beber. Com a movimentação dos outros, levantando o tempo todo para dançar rocks barulhentos ou afundar nos quartos onde rolavam carreiras e baseados, devagarinho conquistou a cadeira de junco junto à janela. A noite clara lá fora estendida sobre a Henrique Schaumann, a avenida poncho & conga, riu sozinha. Ria sozinha quase o tempo todo, uma moça magra querendo controlar a própria loucura, discretamente infeliz. Molhou os lábios na vodca tomando coragem de olhar para ele, um moço queimado de sol e calças brancas com a barra descosturada. Baixou outra vez os olhos, embora morena também, e suspirou soltando os ombros, coluna amoldando-se tensa ao junco da cadeira. Só porque era sábado e não ficaria, desta vez não, parada entre o som, a televisão e o livro, atenta ao telefone silencioso. Sorriu olhando em volta, muito bem, parabéns, aqui estamos.
Não que estivesse triste, só não sentia mais nada.
Levemente, para não chamar a atenção de ninguém, girou o busto sobre a cintura, apoiando o cotovelo direito no peitoril da janela. Debruçou o rosto na palma da mão, os cabelos lisos caíram sobre o rosto. Para afastá-los, ela levantou a cabeça, e então viu o céu. Um céu tão claro que não era o céu normal de Sampa, com uma lua quase cheia e Júpiter e Saturno muito próximos. Vista assim parecia não uma moça vivendo, mas pintada em aquarela, estatizada feito estivesse muito calma, e até estava, só não sentia mais nada, fazia tempo. Quem sabe porque não evidenciava nenhum risco parada assim, meio remota, o moço das calças brancas veio se aproximando sem que ela percebesse. Parado ao lado dela, vistos de dentro, os dois pintados em aquarela - mas vistos de fora, das janelas dos carros procurando bares na avenida, sombras chinesas recortadas contra a luz vermelha. E de repente o rock barulhento parou e a voz de John Lennon cantou every day, every way is getting better and better. Na cabeça dela soaram cinco tiros. Os olhos subitamente endurecidos da moça voltaram-se para dentro, esbarrando nos olhos subitamente endurecidos do moço. As memórias que cada um guardava, e eram tantas, transpareceram tão nitidamente nos olhos que ela imediatamente entendeu quando ele a tocou no ombro.
- Você gosta de estrelas?
- Gosto. Você também?
- Também. Você está olhando a lua?
- Quase cheia. Em Virgem.
- Amanhã faz conjunção com Júpiter.
- Com Saturno também.
- Isso é bom?
- Eu não sei. Deve ser.
- É sim. Bom encontrar você.
- Também acho.
(Silêncio)
- Você gosta de Júpiter?
- Gosto. Na verdade “desejaria viver em Júpiter onde as almas são puras e a transa é outra”.
- Que é isso?
- Um poema de um menino que vai morrer.
- Como é que você sabe?
- Em fevereiro, ele vai se matar em fevereiro.
- Hein?
(Silêncio)
- Você tem um cigarro?
- Estou tentando parar de fumar.
- Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora.
- Você tem uma coisa nas mãos agora.
- Eu?
- Eu.
(Silêncio)
- Como é que você sabe?
- O quê?
- Que o menino vai se matar.
- Sei muitas coisas. Algumas nem aconteceram ainda.
- Eu não sei nada.
- Te ensino a saber, não a sentir. Não sinto nada, já faz tempo.
- Eu só sinto, mas não sei o que sinto. Quando sei, não compreendo.
- Ninguém compreende.
- Às vezes sim. Eu te ensino.
- Difícil, morri em dezembro. Com cinco tiros nas costas. Você também. Do poema “Vazio na carne”, de Henrique do Vaile.
- Também, depois saí do corpo. Você já saiu do corpo? (Silêncio)
- Você tomou alguma coisa?
- O quê?
- Cocaína, morfina, codeína, mescalina, heroína, estenamina, psilocibina, metedrina.
- Não tomei nada. Não tomo mais nada.
- Nem eu. Já tomei tudo.
- Tudo?
- Cogumelos têm parte com o diabo.
- O ópio aperfeiçoa o real.
- Agora quero ficar limpa. De corpo, de alma. Não quero sair do corpo.
(Silêncio)
- Acho que estou voltando. Usava saias coloridas, flores nos cabelos.
- Minha trança chegava até a cintura. As pulseiras cobriam os braços.
- Alguma coisa se perdeu.
- Onde fomos? Onde ficamos?
- Alguma coisa se encontrou.
- E aqueles guizos?
- E aquelas fitas?
- O sol já foi embora.
- A estrada escureceu. Mas navegamos.
- Sim. Onde está o Norte?
- Localiza o Cruzeiro do Sul. Depois caminha na direção oposta.
(Silêncio)
- Você é de Virgem?
- Sou. E você, de Capricórnio?
- Sou. Eu sabia.
- Eu sabia também.
- Combinamos: terra.
- Sim. Combinamos.
(Silêncio)
- Amanhã vou embora pra Paris.
- Amanhã vou embora pra Natal.
- Eu te mando um cartão de lá.
- Eu te mando um cartão de lá.
- No meu cartão vai ter uma pedra suspensa sobre o mar.
- No meu não vai ter pedra, só mar. E uma palmeira debruçada.
(Silêncio)
- Vou tomar chá de ayahuasca e ver você egípcia. Parada ao meu lado, olhando de perfil.
- Vou tomar chá de datura e ver você tuaregue. Perdido no deserto, ofuscado pelo sol.
- Vamos nos ver?
- No teu chá. No meu chá.
(Silêncio)
- Quando a noite chegar cedo e a neve cobrir as ruas, ficarei o dia inteiro na cama pensando em dormir com você.
- Quando estiver muito quente, me dará uma moleza de balançar devagarinho na rede pensando em dormir com você.
- Vou te escrever carta e não mandar.
- Vou tentar recompor teu rosto sem conseguir.
- Vou ver Júpiter e me lembrar de você.
-Vou ver Saturno e me lembrar de você.
- Daqui a vinte anos voltarão a se encontrar.
- O tempo não existe.
- O tempo existe, sim, e devora.
-Vou procurar teu cheiro no corpo de outra mulher. Sem encontrar, porque terei esquecido. Alfazema?
- Alecrim. Quando eu olhar a noite enorme do Equador, pensarei se tudo isso foi um encontro ou uma despedida.
- E que uma palavra ou um gesto, seu ou meu, seria suficiente para modificar nossos roteiros.
(Silêncio)
- Mas não seria natural.
- Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem.
- Natural é encontrar. Natural é perder.
- Linhas paralelas se encontram no infinito.
- O infinito não acaba. O infinito é nunca.
- Ou sempre.
(Silêncio)
- Tudo isso é muito abstrato. Está tocando Kiss, kiss, kiss. Por que você não me convida para dormirmos juntos.
- Você quer dormir comigo?
- Não.
- Porque não é preciso?
- Porque não é preciso.
(Silêncio)
- Me beija.
- Te beijo.
Foi a última pessoa que viu ao sair. Tão bonita que ele baixou os olhos, sem saber sabendo que ela também o tinha visto. Desceu pelo elevador, a chave do carro na mão. Rodou a chave entre os dedos, depois mordeu leve a ponta metálica, amarga. Os olhos fixos nos andares que passavam, sem prestar atenção nos outros que assoavam narizes ou pingavam colírios. Devagarinho, conquistou o espaço junto à porta. Os ruídos coados de festas e comandos da madrugada nos outros apartamentos, festas pelas frestas, riu sozinho. Ria sozinho quase sempre, um moço queimado de sol, com a barra branca das calças descosturada, querendo controlar a própria loucura, discretamente infeliz. Mordeu a unha junto com a chave, lembrando dela, uma moça magra de cabelos lisos junto à janela. Baixou outra vez os olhos, embora magro também. E suspirou soltando os ombros, pés inseguros comprimindo o piso instável do elevador, Só porque era sábado, porque estava indo embora, porque as malas restavam sem fazer e o telefone tocava sem parar. Sorriu olhando em volta.
Não que estivesse triste, só não compreendia o que estava sentindo.
Levemente, para não chamar a atenção de ninguém, apertou os dedos da mão direita na porta aberta do elevador e atravessou o saguão gelado, saindo para a rua. Apoiou-se no poste da esquina, o vento esvoaçando os cabelos, e para evitá-lo ele então levantou a cabeça e viu o céu. Um céu tão claro que não era o céu normal de Sampa, com uma lua quase cheia e Júpiter e Saturno muito próximos. Visto assim parecia não um moço vivendo, mas pintado num óleo de Gregório Gruber, tão nítido estava ressaltado contra o fundo da avenida, e assim estava, mas sem compreender, fazia tempo. Quem sabe porque não evidenciava nenhum risco, a moça debruçou-se na janela lá em cima e gritou alguma coisa que ele não chegou a ouvir. Parado longe dela, a moça visível apenas da cintura para cima parecia um fantoche de luva, manipulado por alguém escondido, o moço no poste agitando a cabeça, uma marionete de fios, manipulada por alguém escondido.
De repente um carro freou atrás dele, o rádio gritando “se Deus quiser, um dia acabo voando”. Na cabeça dele soaram cinco tiros. De onde estava, não conseguiria ver os olhos da moça. De onde estava, a moça não conseguiria ver os olhos dele. Mas as memórias de cada um eram tantas que ela imediatamente entendeu e aceitou, desaparecendo da janela no exato instante em que ele atravessou a avenida sem olhar para trás.
domingo, 18 de abril de 2010
''O amor é procurar cabelos para completar as mãos, é procurar o que não se viveu para contar. É esperar o sol aquecer o lado ileso da cama. É não apagar direito a ausência, a letra, o cheiro. É insistir com respostas sem as perguntas. Adiar o amor ainda é cumpri-lo. Fingir que não se sente é exercê-lo. O amor devora os sobreviventes. Não lembra do pente, da navalha, da tesoura de unhas, do jornal, do abajur. O amor não lembra do que precisa. Amor é não precisar de nada. É precisar do que acontece depois do nada, ainda que não aconteça. O amor confunde para se chegar ao mistério. Embaralha para não se ouvir. Perde-se no próprio amor a capacidade de amar. Amor é comer a fruta do chão. O chão da fruta. O amor queima os papéis, os compromissos, os telefones onde havia nomes. O amor não se demora em versos, se demora no assobio do que poderia ser um verso. O amor é uma amizade que não foi compreendida, uma lealdade que foi quebrada. O amor é um desencontro por dentro.''
Carpinejar
Carpinejar
sábado, 17 de abril de 2010
Sempre que escrevo, costumo pensar na Clarisse, e nele, no meu anjo, Caio Fernando. Me teletransporto pro mundo da fantasia e entro nos seus contos. Vivo intensamente. O choro também é intenso quando percebo que, tudo não passou de uma fantasia. Aí fico eu, triste como sempre, num mundo de utopia. Ferito um anjo abortado
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Olha, daqui há algum tempo, quando a gente morar junto, tudo vai ser melhor, vai ser mais fácil. Posso até prever uma cena típica da nossa futura rotina -não gosto da palavra rotina, mas tudo bem.
Eu vou acordar às 5:30 da manhã, depois de uma longa e fervorosa noite de amor, vou tirar o lençol e me enrolar nele, vai estar frio, vou tomar meu banho e quando voltar, vou sussurrar no teu ouvido "vadia, vai tomar banho que tu tá fedendo amor" mesmo você não estando fedendo. Nunca está.
Então, você vai acordar resmungando e brigando comigo porque te chamei mais um vez de vadia, e finalmente vai ir tomar banho. Enquanto dou leite pro nosso gato, vou filando um cigarro, porque nem todo mundo é santo, e depois, vou descer, de pijama mesmo, pra comprar pão pro teu café. Vou pegar o jornal -sim, vamos assinar o jornal- e subir pra acabar de arrumar as coisas.
Pão e bolachas pra ti, algum cereal com leite pra mim, depois café. Acho que vou ter que aprender a fazer sucos decentemente ou vamos ter que comprar estoques de sucos prontos, pois, sei que não gosta de café e é alérgico à lactose.
Sim amor, eu to expondo quase tudo demais. Mas eu sei a hora de parar, ao menos tento parar.
Passado o café, time no apê antes de sair pra ir pra universidade. Apé-apê-à-pé.
Ah, amor amor amor amor, Tudo corre bem durante o dia e à noite, barzinho, casa, sexo e dormir pra no outro dia, tudo de novo....
Nos finais-de-semana, trips e visitas de amigos e visitar amigos, e ir em bares, andar pelo underground, rir muito, beber muito, amar muito. Visitas inesperadas de longe, certo que minha mãe vai querer ver a gente a cada mês, já sei até o que ela vai falar:
-Tu-e-ele andam se alimentando muito mal, olha só essa geladeira?! E os estudos, vão bem? Não entre no crack e nem nas outras drogas, tu anda bebendo é? Teu tio me contou que te viu fumando por aí dia desses, é verdade que tu tava fumando? Olha, de repente, eu venha passar algum tempo aqui pra ver se isso é verdade, mas eu posso confiar em você, não posso?
-Pode mãe, tá tudo bem, eu já tenho mais de 18, não vou te decepcionar, fica tranquila gata, falar em gata, pode levar o gato no veterinário, a gente tá sem tempo e....
-Posso sim.
-Obrigada mãe, de noite a gente volta.
É, eu-e-você na cidade que, embora de alegre só tenha o nome, vamos tentar ser felizes, amar demais, brigar demais, viver demais.
Nota ultramegaimportante: Planos loucos no banho podem realizar-se, assim como podem não passar do papel e da mente insana de quem os planeja, vulgo, Miss Lexotan que atende também por Dai.
Eu vou acordar às 5:30 da manhã, depois de uma longa e fervorosa noite de amor, vou tirar o lençol e me enrolar nele, vai estar frio, vou tomar meu banho e quando voltar, vou sussurrar no teu ouvido "vadia, vai tomar banho que tu tá fedendo amor" mesmo você não estando fedendo. Nunca está.
Então, você vai acordar resmungando e brigando comigo porque te chamei mais um vez de vadia, e finalmente vai ir tomar banho. Enquanto dou leite pro nosso gato, vou filando um cigarro, porque nem todo mundo é santo, e depois, vou descer, de pijama mesmo, pra comprar pão pro teu café. Vou pegar o jornal -sim, vamos assinar o jornal- e subir pra acabar de arrumar as coisas.
Pão e bolachas pra ti, algum cereal com leite pra mim, depois café. Acho que vou ter que aprender a fazer sucos decentemente ou vamos ter que comprar estoques de sucos prontos, pois, sei que não gosta de café e é alérgico à lactose.
Sim amor, eu to expondo quase tudo demais. Mas eu sei a hora de parar, ao menos tento parar.
Passado o café, time no apê antes de sair pra ir pra universidade. Apé-apê-à-pé.
Ah, amor amor amor amor, Tudo corre bem durante o dia e à noite, barzinho, casa, sexo e dormir pra no outro dia, tudo de novo....
Nos finais-de-semana, trips e visitas de amigos e visitar amigos, e ir em bares, andar pelo underground, rir muito, beber muito, amar muito. Visitas inesperadas de longe, certo que minha mãe vai querer ver a gente a cada mês, já sei até o que ela vai falar:
-Tu-e-ele andam se alimentando muito mal, olha só essa geladeira?! E os estudos, vão bem? Não entre no crack e nem nas outras drogas, tu anda bebendo é? Teu tio me contou que te viu fumando por aí dia desses, é verdade que tu tava fumando? Olha, de repente, eu venha passar algum tempo aqui pra ver se isso é verdade, mas eu posso confiar em você, não posso?
-Pode mãe, tá tudo bem, eu já tenho mais de 18, não vou te decepcionar, fica tranquila gata, falar em gata, pode levar o gato no veterinário, a gente tá sem tempo e....
-Posso sim.
-Obrigada mãe, de noite a gente volta.
É, eu-e-você na cidade que, embora de alegre só tenha o nome, vamos tentar ser felizes, amar demais, brigar demais, viver demais.
Nota ultramegaimportante: Planos loucos no banho podem realizar-se, assim como podem não passar do papel e da mente insana de quem os planeja, vulgo, Miss Lexotan que atende também por Dai.
quarta-feira, 14 de abril de 2010
BOLERO
"Mas combinaram:
Quatro noites antes, quatro depois do plenilúnio, cada um em sua cidade, em hora determinada, abrem a janela de seus quartos de solteiros, apagam as luzem abraçando a si mesmos, sozinhos no escuro, dançam boleros tão apertados que seus suores se misturam, seus cheiros se confundem, suas febres se somam em quase noventa graus, latejando duro entre as coxas um do outro.
Lentos boleros que mais parecem mantras. Mais índia do que Caribe. Pérsia quem sabe, budismo hebraico em celta e yorubá. Ou meramente Acapulco, girando num embrujo de maraca y bongô.
Desde então, mesmo quando chove ou o céu tem nuvens, sempre sabem quando é lua cheia. E quandop mingua e some, sabem que se renova e cresce e torna a ser cheia outra vez e assim por todos os séculos e séculos porque é assim que é e sempre será, se Deus quiser e os anjos disserem Amém.
E dizem, vão dizer, estão dizendo, já disseram."
Caio Abreu
Quatro noites antes, quatro depois do plenilúnio, cada um em sua cidade, em hora determinada, abrem a janela de seus quartos de solteiros, apagam as luzem abraçando a si mesmos, sozinhos no escuro, dançam boleros tão apertados que seus suores se misturam, seus cheiros se confundem, suas febres se somam em quase noventa graus, latejando duro entre as coxas um do outro.
Lentos boleros que mais parecem mantras. Mais índia do que Caribe. Pérsia quem sabe, budismo hebraico em celta e yorubá. Ou meramente Acapulco, girando num embrujo de maraca y bongô.
Desde então, mesmo quando chove ou o céu tem nuvens, sempre sabem quando é lua cheia. E quandop mingua e some, sabem que se renova e cresce e torna a ser cheia outra vez e assim por todos os séculos e séculos porque é assim que é e sempre será, se Deus quiser e os anjos disserem Amém.
E dizem, vão dizer, estão dizendo, já disseram."
Caio Abreu
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